quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Confraria mágica

A convite de minha filha, Bruna, editora musical, fui ouvir Cybele, Cynara, Cyva e Sonya, o Quarteto em Cy. Em tudo por tudo, um show impecável. Até o atraso, como verão abaixo, foi um ensinamento.
O show foi uma homenagem da Confraria do Rocca, que, de seis em seis meses, tem promovido magníficos shows em Campo Grande. Os anteriores foram “Os Cariocas”, “MPB4” e agora “Quarteto em Cy”.


A CONFRARIA
O grupo é corajoso. Arte não se faz sem coragem. Um exemplo dessa coragem foi a formulação de seus princípios. Se der lucro, o evento beneficia uma instituição benemérita. Se der prejuízo, a Confraria o rateia entre os participantes. Não houve prejuízo até hoje. Outro indício de coragem, foi a contratação de Mercedes Sosa que cancelou o show à última hora. Já estava muito adoentada. Os quatrocentos ingressos vendidos foram devolvidos aos pagantes, garantindo ao grupo a credibilidade de que hoje goza.


Os artistas são de extremo bom gosto, que não mais estão no topo do mercado cultural. Vale dizer, os cachês já não são os mais altos, mas os espetáculos ainda habitam o imaginário de pessoas de bom gosto.

Por isso, o sucesso. No show do Quarteto em Cy esgotaram-se os ingressos.


CREDIBILIDADE

A credibilidade da Confraria do Rocca é tanta que o show atrasou-se 50 inimagináveis minutos, por problemas técnicos, equalização de aparelhos, atraso no vôo dos artistas e outros incidentes que, em qualquer outro palco ou teatro, seria motivo de vaias e reclamações. Nunca vimos um público mais educado. Na maior civilidade, aguardou o momento, ouviu os usuais pedidos de desculpas e aplaudiu o show.


O PÚBLICO

A audiência é o sonho de todo artista. Gente bonita, educada, sem celulares tocando, sem lixo, sem tumulto. A platéia é ela mesma um show. Não sei se é o tamanho do teatro que induz esse comportamento educado, mas vale dizer que não tenho visto muito disso nas platéias em geral.

O QUARTETO

As meninas Cybele, Cynara, Cyva e Sonya, o Quarteto em Cy, fizeram um espetáculo impecável. Sambam, dançam, declamam e são simpáticas e eficientes musicalmente. O encanto está em ouvir cantoras que estão há quarenta anos exercendo sua arte, sem perder o ritmo.

A banda, lembrando a leveza do blues, é excepcional. Levinha, não concorre com os cantores. O teclado espetacular, o baixo e um cavaquinho incrível. Os arranjos na medida para a voz do quarteto. O show é contínuo, pois beleza não admite intervalo. Não há muito papo. Música pede música.

Ali, vendo aquelas meninas, sim, dançando, balançando ao ritmo de bom samba, com a letra maravilhosa de Vinicius, com a música encantadora do Maestro Antônio Carlos Jobim, com algumas incursões para músicas de Baden e Edu Lobo, fiquei com os olhos marejados. Estava vendo um show que minha vida pedia, num lugar mágico, respeitado por uma platéia igualmente maravilhada.

Obrigado, Confraria do Rocca. Vocês, com a competência de minha amiga Andressa à parte, estão ensinando a fazer arte.

Quando estive em Florença, no Museu da Academia, extasiado diante do Davi de Michelangelo exposto sob uma luz natural que é um particular espetáculo, li uma pequena placa, num cantinho do saguão: A KODAK SE ORGULHA DE TER ENCONTRADO A LUZ PERFEITA QUE MICHELANGELO SONHOU PARA O SEU DAVI.

Talvez as palavras exatas não sejam essas. Mas, parodiando a Kodak, a Confraria do Rocca pode se orgulhar de ter promovido shows que o meu coração pediu a vida toda.

Artigo escrito por João Campos* 
*Advogado especialista em Direito do consumidor

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